5 questões para conhecer Raquel Fontão e «Nada Há a Temer»

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  1. O que esteve na origem de «Nada Há a Temer»?

A ideia para o meu livro Nada Há a Temer surgiu do meu fascínio por vídeos de algumas youtubers onde via ser explorado o modo de vida tradicionalista, ou se quiserem, tradwife. Encantou-me esta visão que algumas delas tinham em romantizar os valores tradicionais e a maternidade e achava fascinante o modo de vida, muito idílico, a estética, os valores, mas depois, quando comecei a ver os padrões repetitivos, a influência transversal aos diferentes canais que assistia e me deixava levar pelo simples exercício de observação, apercebi-me da toxicidade existente que era tão mascarada que só quem estivesse muito atento conseguia ver. O que via ou ouvia, nas diferentes plataformas digitais, era tão bizarro, que se deixássemos de lado o discurso direto que a própria criadora impingia aos seus seguidores e nos focássemos no meio ambiente e nos restantes envolvidos, reparávamos que havia muita coisa errada. Comecei a explorar essa narrativa, no contraste entre uma mulher moderna, como Teresa Mendoça, a escritora desta história e duas mulheres jovens, tradicionalistas e youtubers. Então, mais tarde, surgiu o título e tudo se encaixou na perfeição.

Esta é uma história sobre o perigo dessa romantização dos valores tradicionais e da submissão, principalmente, por uma visão feminina. O perigo está na influência desses valores levados ao extremismo numa era digital como a nossa.

Este não é um livro sobre religião, patriarcado ou tradicionalismo. É sobre toxicidade e o contraste entre o que se vê e o que não se vê.

Pegando nesta ideia, o que quis mostrar neste livro, é o vazio que fica após esta romantização. Será que estas mulheres voltam a vislumbrar e a experienciar um mundo real, depois de anos com os olhos voltados para uma lente de uma câmara? Não ficará apenas o vazio ou uma realidade muito distorcida?

  1. Qual a sua frase preferida do livro? Porquê?

«Como se todo o julgamento maternal coubesse numa simples colher de gelado. Revestido a leite pasteurizado e sabor a morango.» Não é só uma frase, mas estão ligadas e funcionam como uma união. São duas frases simples, mas que mostram o julgamento e esta competição extremista, do ponto de vista maternal, reduzida a uma insignificância como uma simples colher de gelado. O peso de uma luta geracional e secular da maternidade concentrados numa ridícula colher de sobremesa. Afinal, neste livro, essa discrepância de valores levará a atitudes e a julgamentos tóxicos e nefastos que rondará o inimaginável, mas que, na realidade, todas nós, mães, nos revemos nessa luta diária de defender o que achamos melhor para os nossos próprios filhos.

  1. O que gostaria que os leitores retirassem do livro?

Este livro retrata uma realidade que, infelizmente, temos assistido muito ao longo destes últimos anos. Esta glorificação e romantização da submissão e do extremismo dos valores tradicionais. O meu objetivo, enquanto escritora, não é fazer dos meus livros exercícios de reflexão. Talvez possa apresentar visões diferentes que façam o leitor refletir. Mas, acima de tudo, quero oferecer sempre um escape ao mundo real. Principalmente com este livro. Quero oferecer-lhe uma atmosfera tão bizarra e disruptiva que o fará esquecer-se por meros minutos da sua realidade. Quero que o leitor sinta medo, tristeza e solidão. E que depois levante os olhos da página e suspire de alívio.

  1. Existe algum ritual ou hábito que acompanhe o seu processo de escrita?

Não tenho rituais enquanto escrevo, pois tenho de o fazer nas margens do dia, por vezes, por períodos de tempo muito curtos. Tenho, sim, algumas manias, como me obrigar a parar de escrever a meio de uma cena ou só começar a escrever o primeiro rascunho depois de ter o título.

  1. Que autores ou obras tiveram maior influência no seu percurso literário?

A obra que mais marcou o meu percurso literário foi Distância de Segurança, de Samanta Schweblin. Nesse livro, vi como era possível quebrar a realidade através das palavras. Sigo, então, tentando emular, como um exercício de imitação, esta escrita disruptiva, como uma construção de um todo. Autores como Mariana Énriquez, Max Porter, Pilar Adón, Virginia Feito, Irene Solà, Claudia Pineiro, Júlio Cortázar, Shirley Jackson, Flanery O’Connor e Pedro Lucas Martins têm-me construído enquanto autora nestes últimos anos. E espero continuar a sofrer da sua influência durante muitos, muitos mais.

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