5 questões para conhecer Salvador Furtado e «Entre a Loucura e a Graça»

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       1. O que esteve na origem de «Entre a Loucura e a Graça»?

Entre a Loucura e a Graça não teve bem uma origem. Foi mais uma pressão constante.

Tinha um amigo que me dizia muitas vezes que eu tinha jeito para observar, para reparar no detalhe, para contar histórias. Dizia-me que eu conseguia transportar episódios que, em si, não tinham graça nenhuma e, ao contá-los, torná-los engraçados.

Ele insistia: «Escreve um conto. Escreve qualquer coisa.» E eu fui negando, negando, negando. Até que, depois de vários ultimatos, decidi escrever — não propriamente para lhe dar razão, mas para lhe provar que ele estava errado. No fundo, comecei este livro para mostrar a um amigo meu que era incapaz de escrever um conto. Acabei por escrever um romance.

      2. Qual a sua frase preferida do livro? Porquê?

«Como é que estará o Atlântico?” é, para mim, a frase que marca o livro. Prefiro não a explicar demasiado. Mas não tenho dúvidas de que é a mais importante; além disso, foi a que mais tempo levei a decidir como escrever. E, ao mesmo tempo, é aquela que pode dar ao leitor mais interpretações. É isso que me interessa nela.

      3. O que gostaria que os leitores retirassem do livro?

Por um lado, gostava que ficasse a ideia de que qualquer pessoa pode escrever um livro. Não é uma coisa reservada a «talentos especiais». É trabalho, insistência, vontade e dedicação. Qualquer pessoa com uma ideia, um computador ou um papel pode levá-la até ao fim. O talento também se constrói.

Por outro lado, há aquilo que o livro tenta tocar. Fala-se muito (e bem) da fragilidade, mas raramente da fragilidade masculina. Continua a ser um tema pouco assumido. E o livro entra aí.

A personagem constrói uma espécie de capa: torna-se mais duro, mais distante, mais desagradável até. Não porque seja assim, ou porque queira, mas porque não consegue lidar com o facto de ter sido abandonado. Com o peso de ser deixado para trás, e isso vai moldando tudo: a forma como fala, como age, como se relaciona. No fundo, há uma falha muito grande, muitas vezes silenciosa, na forma como se olha para o abandono e para os sentimentos do homem. E o próprio homem, muitas vezes, também não sabe lidar com isso. Não sabe enfrentar aquilo que podemos chamar «um problema de homem».

As pessoas nem sempre estão atentas a essa dimensão. E era isso que eu gostava que ficasse: quando o homem não explora os seus sentimentos, quando não os enfrenta, pode transformar-se noutra coisa. Pode tornar-se alguém completamente louco.

      4. Existe algum ritual ou hábito que acompanhe o seu processo de escrita?

Eu não escrevi sempre na mesma secretária, nem na mesma cidade, nem no mesmo país, às vezes, nem no mesmo continente. Por isso, tive sempre de me adaptar ao ambiente em que estava.

Mas lembro-me de algumas jornadas em que escrevia muito, fumava muito, dançava e cantava muito. Nos dias em que passava 12 horas a escrever, por exemplo, tinha o hábito de, mais ou menos de três em três horas, parar e ficar completamente louco, de olhos fechados, a dançar durante dez minutos. Depois voltava.

O ritual mais constante era outro: ler tudo o que tinha escrito no dia anterior. E isso era, muitas vezes, a parte mais frustrante do processo. Aconteceu-me várias vezes acabar o dia convencido de que tinha escrito um grande capítulo – ou uma grande parte de um capítulo – e, no dia seguinte, voltar ao texto e achá-lo absolutamente péssimo.

       5. Que autores ou obras tiveram maior influência no seu percurso literário?

Sem margem para dúvida, há autores que estão muito presentes na forma como tento escrever. Acho que faz sentido tentarmos replicar aquilo de que gostamos. Não copiar, evidentemente, mas ir buscar uma certa ideia de literatura, uma forma de olhar para as coisas.

A nível de enredo, diria Michel Houellebecq. A nível de escrita, de descrição, de secura, Ernest Hemingway. E depois também o próprio Houellebecq, pela introspeção e pela capacidade de pôr o leitor a pensar. Talvez aí também entre Camus: autores que não estão apenas a construir uma história ficcional, mas também a filosofar, ou pelo menos a tentar fazê-lo.

Gosto dessa sensação de um livro estar a debater connosco. Quando leio Houellebecq, muitas vezes sinto isso: que ele está a discutir comigo, que escreveu aquela frase para mim naquele momento. Posso concordar ou discordar, mas o texto obriga-me a pensar para lá daquilo que está escrito. E acho que é isso que, de alguma forma, também tento fazer.

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