O cais das incertezas

Publicado . 2019-01-30 | Categorias . Artigos

José Alberto Salgado acaba de publicar, nesta nossa e vossa Guerra e Paz, o seu segundo romance, O Cais das Incertezas. A acção decorrem em Lisboa, 1937. A cidade é a porta de saída para muitos judeus perseguidos pelas garras de Hitler. Pelos hotéis, praças e esplanadas lisboetas, uma multidão acossada espera a passagem para a América e a liberdade. Fizemos ao autor as nossas três perguntas sacramentais. José Alberto Salgado responde com 

Em que se baseou para escrever este romance?

Por ter passado dois anos da minha juventude na cidade de Lisboa no início da década de 60 do século passado, a partir de certa altura comecei a sentir uma espécie de nostalgia dos tempos difíceis ali vividos ( e que era ser perseguido continuamente, principalmente de noite, por pedófilos e homossexuais, foi uma das enormes contrariedades!) e uma necessidade de os partilhar com alguém, principalmente com aquelas pessoas que me conheciam e me incentivavam a fazê-lo. Grande parte da história contada no meu primeiro trabalho é passada na difícil Lisboa daqueles tempos.  

Desta vez quis que a história contada no «O Cais das Incertezas» tivesse por cenário a Lisboa que não conheci, mas que sempre me fascinou: a Lisboa dos espiões, dos refugiados judeus, da Abwer (Gestapo) de Von Karsthoff, da PVDE de Agostinho Lourenço, da prostituição, dos bares de alterne do Cais do Sodré e, para fazê-lo, inventei uma história, criei as personagens necessárias e, como num tabuleiro de xadrez, atribui a cada uma delas um papel a desempenhar. O resultado teria de ser uma história interessante, romântica e que fizesse com que o leitor sentisse prazer, curiosidade e ânsia de saber sempre o que ia ler na página seguinte.

Se o leitor sentir o mesmo que eu, quando me releio e não consigo evitar uma lágrima no canto do olho, o meu objectivo foi alcançado.

Depois do seu primeiro livro, esta história volta a ser quase verdadeira?

Esta não é uma história quase verdadeira, mas certamente que naquele tempo e naquelas circunstâncias, alguns refugiados sentiram na pele aquele medo e aquele desespero, que sentiram Berta e a mãe no «O Cais das Incertezas».

Depois de Lisboa, Paris tem um lugar privilegiado no meu coração. É uma cidade onde decidi situar as personagens do trabalho que comecei a escrever. A inspiração parece mais fácil quando se tem por base um cenário romântico como a cidade luz. Paris tem todos os ingredientes para nos facilitar a tarefa. A Belle Époque, a boémia, os cabarets, o Impressionismo, O Moulin Rouge, Saint-Germain- des-Prés, Pigalle, a noite e os indigentes (clochards), etc.

Os regimes ditatoriais do século XX são um tema que lhe interessa particularmente?

Os regimes ditatoriais sempre me interessaram e não apenas os do século XX. Todos eles foram, e ainda são, para mim, vistos com particular interesse e, nem consigo expressar a satisfação que sinto quando deixam de ser. Felizmente que muitos já terminaram, mas ainda restam alguns que vão perdurar por muito tempo. Estou a pensar no regime chinês e em alguns estados islâmicos, sobretudo.

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