Os meus livros de Abril: fazemos agora 20 anos

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Os meus livros de Abril
faz agora 20 anos

«O que eu gosto de si, senhora Dona Agustina!» Os leitores desta newsletter desculpar-me-ão o começo abrupto, mas há 20 anos, com Agustina, começava a Guerra a Paz editores. No Gólgota e na Buenos Aires, Porto e Lisboa, pedi e implorei que Agustina escrevesse sobre a história de Portugal, sobre essa manta de lealdades e traições, de mistérios e milagres em que se deita a nossa ingente identidade. Dividi a história de Portugal em 12 grandes períodos, elegi três episódios marcantes de cada período e Agustina, uma Agustina regina, escolheu um em cada três, convertendo esse episódio numa «ópera» e com as doze «óperas», a que depois acrescentou uma 13.ª, ofereceu-me a Fama e Segredo na História de Portugal, o primeiro livro da Guerra e Paz editores, a que logo juntei o mais comovente carteio de dois escritores portugueses, agora reeditado com o título Sophia-Sena: as Cartas.

Faz 20 anos no dia 10 de Abril. E o que começa com Agustina tinha de continuar com Agustina. Dizia-me António Lobo Antunes: «Manuel, o que eu gosto da Agustina. Ora ouça como ela escreve…» e dizia-a de cor, eludindo o tempo, a voz a tremer como se nos escutasse o ouvido de Agustina. E foi a esse ouvido perfeitinho que fui buscar o livro com que a Guerra e Paz comemora os seus 20 anos, o Apocalipse de Albrecht Dürer visto por Agustina Bessa-Luís. Foi Mónica Baldaque, filha de Agustina, depois com uma mão de Lourença, a neta, quem me chamou a atenção: Agustina escrevera sobre as xilogravuras de Albrecht Dürer, um texto visionário na forma de «ler e sentir arte», na linha do que para mim escreveria depois sobre Paula Rego, no célebre As Meninas. Livro há muito esgotado, é esse Apocalipse, renovado, que assinala os 20 anos da Guerra e Paz, numa edição enriquecida, grande formato, capa dura, papel de enternecer a mão, com o apoio da Fundação Gulbenkian, em cujo auditório 2, no dia 10 de Abril de 2006, às 18:30, nasceu a Guerra e Paz. Obrigado a todos por este reencontro.

E, já agora, Senhora Dona Agustina, veja se gosta dos livrinhos que juntei para fazerem companhia ao seu Apocalipse. Ora veja: o menino Marcel Proust vem de madalena com o seu Elogio da Leitura; tenho a certeza de que me aprova os arroubos místicos da singela Simone Weil em A Gravidade e a Graça; e, por certo, não lhe parece mal, pois não, trazer o recolhido contraponto oriental dos Ensinamentos Zen do Mestre Huang-Po; como estou seguro de que deitará um rabinho do olho às deambulações de Sir George James Frazer por rituais, sacrifícios, mortes de reis e deuses no volume 2, A Morte do Deus, de O Ramo de Ouro, Um Estudo Sobre Magia e Religião, um dos Livros Não se Rendem, que a Fundação Manuel António da Mota tanto tem apoiado. E nos próximos meses, para celebrar 20 anos, vem aí a publicação de Guerra e Paz, de Tolstoi (tinha de ser!) e um monumental O Dragão Chinês: uma Enciclopédia. Surpresas para meses a vir.

História do Catolicismo, de Yves Bruley, reforça a colecção A Minha Estante, e ainda em Abril, a Guerra e Paz, orgulhosa dos seus 20 anos, alia-se a João Pedro George dando voz às revelações do João sobre as relações de Fernando Pessoa com sua mãe e publica uma série de poemas inéditos da mãe do poeta. Minha Querida Mamã faz-nos entrar no que foi o ambiente em que, afinal, Pessoa foi criado e mimado.

E Abril fecha com dois romances portugueses, cada um seguindo uma tradição deferente. Raquel Fontão inscreve-se num género, o terror, e Nada Há a Temer cumpre com garbo, numa cabana e num espaço de animais e sombras, todos os requisitos do género. Já Salvador Furtado, numa estreia prometedora, oferece-nos Entre a Loucura e a Graça, um romance que num notável equilíbrio de trama, narrativa, diálogos e personagens, consegue ainda, num périplo à Somerset Maugham, interrogar-se sobre o sentido da vida ou, como diria Agustina, sobre as estações da vida.

«Senhora dona Agustina, gosto muito da companhia que, há 20 anos, faz à Guerra e Paz editores. O seu Apocalipse é o sopro de que as 20 velinhas do nosso bolo de aniversário estavam mesmo a precisar!»

 

Euforia
e a Rita a levá-la para o terceiro aniversário

Antes de fazer os 3 anos, que se cumprem a 26 de Setembro, a Euforia não reconhece fronteiras… nem as da morte, como o romance da Catte Coelho, Unidos Além da Morte, não hesita em provar-nos.

E antes de chegar à Netflix, Navessa Allen, autora do futuro, propõe que entremos Em Jogo. Jogam um homem e uma mulher, ele odeia aquela mulher, ela odeia aquele homem. É melhor que não ponham as mãos em cima um do outro.

 

Os livros Gradiva
com o Guilherme por companhia

Quantas vezes o Guilherme Valente soprou as velas dos aniversários da Gradiva? Quarenta e cinco, digo eu. Soprou-as, em 45 Fevereiros,  ao lado de Luís Portela, um autor reservado, como pede a espiritualidade que advoga em Da Ciência ao Amor; soprou-as ao lado do extraordinário historiador que é Luís Filipe Thomaz,  autor de A Expansão Portuguesa; soprou-as, «julgo que foi em Macau, Guilherme, não foi?», ao lado do Umberto Eco de que agora voltamos a publicar O Nome da Rosa. Estes são três dos livros Gradiva que este mês voltam às livrarias portuguesas, com novas capas e novas edições.

E é assim também com Stephen Hawking, por que é sempre nova a interrogação sobre a origem e o destino do universo: A Teoria de Tudo é, por isso, a mais vertiginosa viagem que se pode fazer ao lado da mente brilhante de Hawking, uma viagem aos segredos dos buracos negros e do espaço-tempo. Para quem queira conhecer «a mente de Deus», disse Hawking.

Faço um parêntesis para falar de um livro que devia ser um clássico da gestão e leitura para todos os nossos ministros e primeiros-ministros, O Princípio de Peter, de Laurence J. Peter e Raymond Hull. Este é um livro que gerações e gerações, que se preocupadas com a competência e a incompetência, no privado e no público, deviam ler. Como todos os livros que são mesmo bons, O Princípio de Peter tem muito sentido de humor.

Nos livros da Gradiva deste Abril quase cega o esplendor de Expiação, de Ian McEwan – será o seu melhor romance? – uma das grandes ficções do século XXI. Romances e livros perdidos, tesouros de três milénios, é o que Oliver Tearle recolhe e disseca em Biblioteca Secreta, contando-nos através da história desses livros uma outra história do mundo.

E a Gradiva fecha o mês com talento português: a escrita é de Francisco Ramalheira e o romance chama-se O Último Espião do Reich, e nele, por um daqueles acidentes com que o cosmos nos intriga, se cruzam as vidas de Hitler no seu bunker de Berlim e a de um carteirista de Alfama que, em Janeiro de 1945, saca de bolso alheio a carteira errada. Ou será a carteira certa?

Da sua tão certa carteira é que os meus leitores vão mesmo precisar para terem a companhia de tantas obras-primas. Mas com os livros quem é que se atreve a não ser sumptuário?

Manuel S. Fonseca, editor

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