
Não era no nosso mundo de tempestades que Tolstoi estaria a pensar quando lhe saiu, boca fora, a frase: «O mundo é um vale de lágrimas, mas tudo ponderado, bem irrigado.» O abrigo de Tolstoi era a sua filosofia moral, mas qual será o nosso? Se quiserem acreditar neste débil editor, façam dos livros o vosso abrigo.
Cabe-se tão bem, por exemplo, dentro de A Magia da China – Lendas e Contos de Fadas, um livrinho arrebatadoramente ilustrado, que nos leva à infância chinesa, ao imaginário de raposas prateadas, tigres, luas, ogres e de uma rosa ao entardecer. Um livro para juntar às Lendas e Contos de Fadas Japonesas. Dois livros lindos de morrer, sítio certo para nos escondermos do mundo.
Corydon, romance filosófico (ou será um ensaio ficcional?) de André Gide, é um livro-trincheira: pode fazer-se a guerra bem lá de dentro – ou lá para dentro. Prémio Nobel da Literatura, Gide inventou quatro diálogos sobre a homossexualidade num tempo em que o tema era tabu. Mudaram as guerras, mas não, 75 anos após a morte do autor, o prazer de o ler.
Outro livro rasgado pelos cães da guerra e à procura de abrigo é o que Xavier de Figueiredo nos oferece com A Tragédia da Partida dos Colonos de Angola. Talvez o maior drama vivido por portugueses – um milhão – no séc. XX, aqui se retrata o desespero de famílias expostas a todas as perdas, em estado de pungente vulnerabilidade, escapando em colunas de viaturas pela fronteira da Namíbia, em barcos de pesca pelo Atlântico, ou pelos caóticos aeroportos do Huambo e de Luanda. Xavier vai além do drama e aflige-se com as consequências: essa gente perdeu tudo e teve de reinventar o futuro, mas muitas gerações de angolanos perderam ainda mais. Perderam logo ali o futuro, que ainda não chegou. Um livro-choque.
De outras migrações, antes e depois, nos fala o Atlas das Migrações, de Catherine Wihtol de Wender, o livro em que está encapsulada a chave do nosso tempo. São milhões de seres em movimento, uma massa humana que já vai mais de Sul a Sul do que de Sul a Norte. Neste livro-sem-abrigo, há mais de 100 mapas e uma análise fina das terríveis inquietações que fazem fugir e caminhar, de casa para o desconhecido, milhões de humanos.
«Todos aqueles que foram chamados de “pseudocientistas” pensam que são cientistas. A razão pela qual se dedicam a estas actividades não se prende com o facto de serem contra a ciência, mas, sim, por serem a favor dela.» É esta tese, navalha a cortar a manteiga do senso comum, que Michael D. Gordon defende em Pseudociência. É um livro-laboratório a que vêm também sentar-se a alquimia, as ciências hiperpolitizadas e a parapsicologia. Vão ver que se darão bem com a companhia.
E, certo de que a eufórica Rita Fonseca falará noutro lugar do Espelho de Ti, da Lyla Sage, peço que se aninhem comigo em braços mais luciferinos, os de À Espera que Venha o Diabo, de Mary MacLane. Se não me dissessem que é um livro de 1902 eu não descobriria. É um romance-diário confessional escrito por uma genial jovem de 19 anos. A liberdade e ousadia é do séc. XXII, se no séc. XXII ainda houver jovens de 19 anos. A ousadia é espiritual e sexual (uni & bi) e olhem, oh, diabos, a acreditar em Mary «Ninguém, oh, ninguém no mundo sofre como uma mulher, jovem e sem ninguém!»
Eis o que vos queria dizer: são os livros da Guerra e Paz de Fevereiro. Pode muito bem morar-se em qualquer deles.

Fugir. O que é, afinal, fugir? É, diria, confiar a nossa coragem aos dois pés que temos. E, assim sendo, a fuga talvez seja uma forma abrupta de viajar. Aí estão, em fuga, os meus livros de Fevereiro da Gradiva.
Fugimos da trivialidade e viajamos com Camões nos Lusíadas para Gente Nova. Trabalho em filigrana de Vasco Graça Moura, é uma fuga para pernas frescas, em busca da aventura que é descobrirmos quem somos, de onde vimos, por onde passámos. É este o primeiro livro-viagem de Fevereiro. Um interrail (ou on the road) para jovens, sejam escuteiros, iconoclastas, betos ou radicais, rapazes ou raparigas. Não há melhor forma de desaguar em Camões: pela mão firme de Vasco Graça Moura.
Viagem à volta da nossa própria cabeça é o que Julian Baggini nos propõe em Pensar Como Um Filósofo: Princípios essenciais para um pensamento mais claro. Desfaçam, por favor, a peregrina ideia de que não se aprende a pensar. Aprende-se! E as ideias organizam-se como um exército: é possível pensar bem, se seguirmos os doze princípios-chave que Baggini nos serve página a página. Sem nunca sairmos da nossa cabeça, mas servindo-nos de belo cemitério de cabeças que é a filosofia.
De Carlos Fiolhais, ele próprio um cativante transatlântico de ciência em movimento, chega-nos Toda a Física Divertida. Sempre renovado e actualizado, este é o livro-testemunho que tem passado aos portugueses, de geração em geração, uma visão da física clássica e moderna assente numa imbatível combinação de «sério & lúdico». Pelo mérito de Fiolhais, este é O Principezinho da divulgação científica.
Outra ciência, ficcional, é a de Kazuo Ishiguro, Prémio Nobel da Literatura. Que ciência é essa, que escorre dos dedos de Ishiguro, que ciência é essa que o leva a criar, em Klara e o Sol, tantas interrogações sobre o poético coração humano? Quem não quer, afinal, apaixonar-se por esse coração que parece fugir aos humanos (por aí, por onde vais, não te acompanho mais?) para ir encher de calor (de sol) o tão frio e solitário peito andróide?
Outra viagem, à história, a Colombo, aos mistérios do passado que enchem o presente, tudo isso encontramos em O Codex 632, primeiro romance em que José Rodrigues dos Santos criou o seu herói inseparável, Tomás Noronha. Esta é a edição que celebra os 20 anos da publicação. É o mesmo texto, mas com o peso e a comunhão de mais de meio milhão de leitores. Esta é a homenagem a que a Gradiva não quer – nunca quereria – fugir: as Novas Edições de José Rodrigues dos Santos, o mais lido dos nossos romancistas.
Na fuga, por vezes, há a queda. José António Saraiva, adversário de todas as formas de preconceito e de ideias feitas, escreveu e deixou-nos um livro certeiro sobre a queda de todas as quedas: Salazar a Queda de Uma Cadeira que Não Existia. Saraiva investigou à lupa e põe em causa um dos mitos da ditadura e do ditador, a célebre, elegante e delicada queda de uma cadeira. No fim da viagem e deste livro-fuga não sobra cadeira nenhuma, só uma manipulação pungente.
Que fugas nos autoriza a combinatória de Milo Manara e dos seus erotíssimos desenhos com Umberto Eco e a sua sofisticada escrita? O vol. I do Nome da Rosa, em versão BD, já nos dera sinais: a combinatória é surreal e é sensual. Agora, nos livros-fuga de Fevereiro chega o Nome da Rosa, vol. II. O encontro de Manara e Eco está completo: a fuga é medieval, reflexiva e tensa. Será a BD a fugir para um céu atormentado?
São estes os livros de Fevereiro da Gradiva. Com eles descobrem-se caminhos para outras Índias. Marítimos ou não, isso é o que vamos ver em Março.
Manuel S. Fonseca, editor






