
Pergunto-me: que chama arde ainda no meu peito? Sei é que é grandíssima a pequena chama que arde no peito de António Pedro Moreira: vejam-no a passar por vós, de bicicleta, com o mesmo ânimo gárrulo com que, agora, durante 40 dias pedalou 4 mil quilómetros, prodigiosa e tão terna aventura que está chapadinha em Chama: De Luanda a Maputo de Bicicleta. Ah, África do catano, coisa linda, meu amor.
«Sei que a poesia é indispensável, não sei é a quê!» Julgo que a frase é de Cocteau, e dois livros meus de Junho confirmam-no. Em Silêncio Aberto, Inez Andrade Paes reuniu 100 vozes, de João Luís Barreto Guimarães a Mia Couto e Ramos Rosa para celebrar os 100 anos de Glória de Sant’Ana e do Prémio a que dá nome.
Em As Mãos, todavia, é uma só voz que se escuta, a voz insólita de Rui Teixeira Motta, voz claríssima, de exemplar contenção, capaz de reinventar, palavra a palavra, a inocência, um inapelável erotismo, o humaníssimo desejo, «um sangue de lua cheia / que em cada veia pulsa».
Diz-se que em Portugal, ao usar-se a palavra «escritor», se deve explicar que ofício é esse. Peço ajuda a Steinbeck: «O ofício de escritor obriga-nos a pensar que, em comparação, o de um jockey é uma situação estável!» Trago-vos quatro audaciosos jockeys em Junho. Filipe Bacelo dá-nos um romance de amor e perda em Lembra-te de Mim Sob as Estrelas. Carlos Miguel Ferreira, cultor do thriller, esconde (ou revela) um segredo macabro em A Última Carta.
Vencedor do Prémio Nacional de Literatura do Lions, uma parceria da Guerra e Paz com os Lions de Portugal, Abel Mota escreveu Um Pouco Mais de Sol, romanceando a desolação da infausta figura de Mário Sá Carneiro. Obrigado aos magníficos Lions!
Outro vencedor de um Prémio, o de Revelação Literária, que publicamos em parceria com a UCCLA e a CML, é esse peculiar e provocador artefacto do estreante Cláudio da Silva, que leva por título Boi. É um objecto raro e indecifrável, mas sei que tem cornos, como Michel Leiris exigia à boa literatura. Obrigado às corajosas UCCLA e CML!
Já repararam que os sete livros de que falei são todos de autores portugueses? E os sete ensaios que se seguem? A regra (seis portugueses) é a mesma, com a tal excepção (o senhor Hitchens, que já apresento).
E começo pelo livro que encerra o 3.º ano de Os Livros Não se Rendem. É Cartas a um Jovem Dissidente, de Christopher Hitchens. Ensaio maravilhoso, anti-conformista, apologético do pensamento crítico e da discordância, uma garantia de que há uma relação umbilical entre a inteligência e o sentido de humor. Esta colecção inspiradora, que leva 24 títulos publicados, tem o apoio da Fundação Manuel António da Mota e da Mota Gestão e Participações.
São também eles, a estimada Fundação e a Mota, os mecenas de um projecto ambicioso, Três Séculos de Economia Portuguesa, cinco livros de cinco economistas de que, em Junho, publicamos os dois primeiros: Três Séculos de Economia Portuguesa: Portugal na Revolução Comercial do Século XVIII: As reformas e as políticas pombalinas, de José António Cortez e Três Séculos de Economia Portuguesa: Portugal e o Século XIX: Um século perdido ou o século possível? Fernando Ribeiro Mendes e Hugo Gonzalez de Oliveira. Nos próximos três títulos escrutina-se a economia da Primeira República, Estado Novo, 25 Abril, fim do Império e União Europeia, juntando-se José Félix Ribeiro e António Manzoni aos autores dos dois primeiros livros. Luís Valente de Oliveira prefacia a colecção. Obrigado à Fundação Manuel António da Mota e Mota Gestão e Participações, mecenas exclusivos de Três Séculos de Economia Portuguesa. E uma vénia ao apoio dado aos autores pela CCP, Confederação do Comércio e Serviços.
Einstein nunca pensava no futuro, por achar que ele acabava sempre por vir cedo demais. Mas António Costa Silva, que elegemos autor favorito da Guerra e Paz, aceitou, de tanto lhe pedirmos, tentar antever o nosso futuro, escrevendo Portugal na Europa e Com a Europa: Que Futuro?, diálogo turbulento com os nossos impasses e com a linha de horizonte do relatório Draghi. É o segundo tomo da colecção diatribe.
Mas que futuro teremos se não soubermos revisitar o passado? António Pinto Barbosa: O Primeiro Economista, de Filipe S. Fernandes, revela-nos a biografia política e académica de um dos grandes economistas portugueses do século XX, ministro, governador do Banco de Portugal, grande professor. É o mais recente título de Histórias de Liderança, nossa parceria com a Fundação Amélia de Mello, envolvendo também a Nova School of Business and Economics. Obrigado à Fundação Amélia de Mello, uma vénia amiga à Nova SBE.
Por falar em universidade, belo ensaio – que impacto têm na democracia as guerras de identidade, género e racismo – é o do investigador do ISCTE, João Ferreira Dias: Guerras Culturais: os Ódios que nos Incendeiam e Como Vencê-los.
De outra universidade, a Nova FCSH, vem o professor Marco Neves. Já não é nosso autor, é mesmo da nossa família, e esta é a obra mais prática e mais útil que nos poderia dar: Gramática & Pontuação: Guia Prático para Escrever Melhor. São 280 páginas de ajuda segura e desinteressada: chamem-lhe amor. À língua portuguesa, claro.

E conta-me lá, Rita Fonseca, o que se passa com a Euforia, essa chancela que cresce a três dígitos? Diz-me a Rita que vem a Portugal a Lyla Sage e traz com ela o quarto e último volume da saga Rancho Rebel Blue. O romance chama-se Selvagem e Domada. Há muita natureza, mas há muito mais material humano, desse human stuff que nunca foge de nós e de que nós só a mentir dizemos que queremos fugir. «Voltaste? Nunca devia ter ido embora!»
Manuel S. Fonseca, editor






