Antes é que era bom?

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Este é um livro delicioso. Não há ninguém que não se tenha interrogado, uma vez que seja, sobre a relação entre o presente e o passado. Quem é que, num arroubo de nostalgia, não tropeçou já na mais emotiva das declarações: «Ah, antes é que era bom!» Mas era? O passado seria mesmo tão dourado como às vezes o pintamos?

Permitam-me, caros leitores, que vos ponha a falar com Michel Serres. Apresento-o, primeiro: Michel Serres é filósofo e historiador das ciências. E atreve-se: membro da Academia francesa, Serres intervém publicamente arriscando oferecer uma visão do mundo em que a filosofia, as  ciências e a cultura se combinam. Neste seu pequeno livro, repleto de fina ironia, Michel Serres, dos seus 87 anos de idade, afirma com toda a clareza: não, o passado não era bom! O presente é bem melhor.

Cito algumas saborosas passagens do livro:

 A Higiene

«… a higiene só se tornou uma prática generalizada muito tempo depois de 1950. Nesses dias da minha infância, a revista Elle impôs-se, não sem estrondo, recomendando às mulheres que mudassem de calcinhas todas as manhãs. Toda a gente ria à socapa, a maioria das pessoas escandalizava-se, o resto achava uma tal exigência impossível. No entanto, a reputação da revista provém desse apelo, que pôs para sempre às avessas as famosas palavras de Bonaparte a Josefina: «Regresso do campo, não volte a lavar-se!» E os deuses teriam apreciado que, por essa mesma altura, houvesse um periódico semelhante para os machos fedorentos.

As estatísticas dizem que a esperança de vida aumentou sobretudo graças a esta propagação civil e súbita da higiene. Antes, vivíamos no reino do amarelo-claro.»

A sábia vida académica

«Incumbido, muito mais tarde, de preparar os normalistas para concurso docente, escutei uma exposição altamente abstracta, proferida por um jovem sábio fadado a um destino de estrela, sobre a diferença entre um trabalhador manual e um intelectual. Na época, o marxismo reinava sem reserva na augusta casa e o estudante citava os génios obrigatórios, Estaline, Mitchurin, Mao… No momento da réplica, enunciei esta coisa singela que enfureceu a vedeta em potência: o trabalhador manual lavava as mãos antes de urinar, ao passo que o intelectual o fazia depois. Não só os militantes e o seu mestre Althusser não conheciam uma palavra de ciência, nem sequer económica, e ainda assim condenavam com desprezo a mecânica quântica, já antiga, e a bioquímica recente, por serem ciências não proletárias, como, burgueses de boa cepa, raramente tinham posto as mãos no óleo ou na lama. Conheci, pois, a idade das trevas nos mais altos lugares do saber. Em teoria, antes, eram bons tempos.»

A luz eléctrica

«Os ricos compravam lanternas a petróleo que, acres, fumegavam, exalavam, tresandavam. Quando avançávamos num corredor gelado, de candelabro na mão, o vento da marcha fazia oscilar a mecha da candeia e a chama projectava sombras nas paredes cuja terrífica dança evocava génios, elfos, fantasmas e larvas que surgiam armados das trevas em redor. Como o dito Século das Luzes ainda se iluminava à vela, só a chegada da electricidade afugentou definitivamente os terrores da superstição. Quem hoje se lembra dessas longas noites escuras, no entanto de nós tão próximas? O Velho Ranzinza, o Sombrio?»

Carnificinas

«Antes, fomos guiados por Mussolini e Franco, Lénine e Estaline, Mao, Pol Pot, Ceausescu… todos eles pessoas de bem, requintados especialistas em campos de extermínio, torturas, execuções sumárias, guerras, depurações. Junto destes ilustres actores, o presidente democrático tem pinta de anónimo, excepto quando faz assinar o humilhante Tratado de Versalhes ao vencido, e quando lança cem vulgares bombardeiros sobre Dresden ou a arma atómica para disseminar a morte entre os civis de Hiroxima e Nagasáqui.

Este século xx político encantou a nossa infância. Quantos hinos, diante da bandeira, fomos obrigados a cantar? Quantos desfiles nos forçaram, a nós, crianças, a acompanhar, a fim de celebrarmos os fantoches que mudavam de opinião, consoante as vitórias ou as derrotas? A quantas mentiras fomos expostos? Quantos torturados ouvimos gritar, quantos cadáveres de amigos vimos nas fossas?»

Antes é que era bom! lê-se com alegria. Há páginas que nos obrigam a dar um salto de espanto e a gritar: «Pois é, era mesmo assim. Já não me lembrava!» Em França, o livro esteve 37 semanas no top nacional, e as vendas aproximam-se dos 150 mil exemplares.

Está aqui (leia e vai gozar muito mais o seu presente!) e está nas livrarias portuguesas. Publicámo-lo, com tradução de Maria João Madeira, segundo volume da colecção Livros Vermelhos, a seguir a Escravatura, de João Pedro Marques.

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