António Lobo Antunes

Publicado . 2018-01-10 | Categorias . Artigos

Por que raio é que um editor não se há-de encantar com os livros de outros editores? Há um tormento que se assoma surdamente em nós. Não sabemos donde vem, de que rumores, de que indizível negação, de que baixo baixo-ventre. Este romance de António Lobo Antunes, traço obsceno entre duas matanças, entre uma sanzala e uma quinta, fica bem nas mãos dos leitores da Guerra e Paz.

Li Até que as pedras se tornem mais leves que a água e foi como se passasse por um lustral, e ao mesmo tempo muito ímpio, ritual de matança do porco, ritual preto, ritual branco, ritual em nome do pai, e em nome do filho.

O romance é, certamente, de António Lobo Antunes. Mas é também do leitor que eu sou. Atrevo-me a dizer que é todo meu: a minha África, a minha sanzala, os meus soldados portugueses que são tão bons como os melhores, a mesma quinta em que ajudei o meu pai a matar os porcos lá de casa. Só nunca tive essa volúvel, malcriada, egoísta, tão contemporânea e tão portuguesa Sua Excelência, que quem gosta de mim, gosta de mim.

E apeteceu-me fazê-lo ainda mais meu a este romance de título longo e personagens sufocadas. Fui-lhe, por isso, metendo coisas dentro e coisas ao lado: liberdades e atrevimentos de leitor. Digo-vos agora que o mal está feito: lembrei-me que, com este romance, passámos a ter duas bárbaras matanças do porco na nossa língua e nos nossos livros. Ao lado da de Lobo Antunes, podíamos pôr, como um vento frio de norte, a do penúltimo livro do Herberto Helder.

E dentro da matança de Lobo Antunes – “não foi o meu pai que eu matei, foram os tiros e a guerra, o gasóleo e o fogo”–, está ou cabe uma igual matança, à machadada, a do Apocalypse Now, Marlon Brando a soçobrar como um búfalo exangue, cachaço e focinho em sangue.

Lê-se este romance de pedras e água e é difícil não ter nos ouvidos a voz branda de António Lobo Antunes. Só a sua voz e um grande silêncio de Inverno à nossa volta: “Março não batia os caixilhos da janela aberta”. E muito menos Abril, neste romance de guerra, da nossa guerra colonial, romance de raças e herança das raças pretas e brancas que em nós se dilaceram, romance de amor doentio que só o ódio e a morte podem redimir.

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